Teses de Doutorado - PPGCOM
Titulo do Trabalho
A EXPERIÊNCIA TOTAL NO ROMANCE-REPORTAGEM: UMA ESTRATÉGIA ÉTICO-ESTÉTICA
Data de criação
16/04/2026 23:00:00
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IP
177.6.84.224
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Resumo
Esta pesquisa, realizada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade
Federal de Goiás, colocou em diálogo dois campos distintos e complementares: o Jornalismo e
a Literatura. Neste hibridismo, a prática da reportagem aprofundada foi analisada à luz da
Teoria do Romance. Demonstrou-se que nem o texto romanesco nem o texto jornalístico se
sustentam à revelia da verdade e, por isso, ao contrário do receio quanto à imbricação entre os
gêneros, entendeu-se que ambos têm mais proximidades que divergências. O romance
comumente se faz do contato íntimo com a realidade inacabada; de uma aproximação com o
psiquismo do leitor; de uma encenação da pluralidade de vozes expressa no cotidiano vivo; de
uma vivificação do desconcerto de personagens por vezes silentes. A reportagem romanceada,
por seu turno, também se constitui dos mesmos termos: há nela uma intimidade com o hoje em
devir e, ademais, uma capacidade de se aproximar das mentes que a devoram. A partir
desses vieses, a tese aqui expressa foi a de que a romanceação da reportagem se constitui como
uma estratégia não apenas atinente à arquitetura textual ou ao arranjo de linguagem. Mais do
que uma técnica de escrita, esta tese defendeu que tal romanceação refere-se a uma ética de
cobertura jornalística, sobretudo quando a apuração diz respeito a temas que se situam no limite
da linguagem. Construiu-se, a fim de se defender este ponto de vista, uma análise ensaística de
duas reportagens: Los suicidas del fin del mundo – crónicas de un pueblo patagónico (2005),
da jornalista argentina Leila Guerriero; e Todo dia a mesma noite – a história não contada da
Boate Kiss (2018), da brasileira Daniela Arbex. Guerriero foi a Las Heras, um pequeno
município na patagônia argentina, para apurar uma onda de suicídios que, entre 1997 e 1999,
assolou dezenas de jovens que ali viviam. Arbex foi a Santa Maria, no Rio Grande do Sul,
estando diante de mães e pais que perderam seus filhos no incêndio na Boate Kiss. Essas
apurações tentaram chegar ao silêncio da perda abrupta, em um primeiro momento, e depois à
busca, por parte dos familiares e amigos daqueles que se foram, de uma compreensão da
totalidade da vida com seus reveses. Assim, sendo o domínio factual insuficiente para tratar
destas temáticas, verificou-se que as repórteres romancearam suas narrativas. Como se
constatou nesta pesquisa, o romance se constituiu como o gênero mais afeito a esta espécie de
fornecimento, a um só tempo, de uma experiência total e de um aparvalhamento – silencioso e
errante. Concluiu-se que, diante de temas tão complexos, as autoras colocaram em ação o
romance para vivificar, no olho do leitor, e via realismo formal, o espaço, o tempo e as
descobertas progressivas, sentidas, das personagens. O amálgama romance-reportagem compôs
uma ética baseada no respeito à alteridade, uma vez que, pela forma-romance, o leitor teve a
possibilidade de mergulhar no mundo de outrem, vivendo-o com proximidade e, por isso
mesmo, reconhecendo-o em Si Mesmo, sem julgá-lo ou sem transformar as ocorrências desta
vida-alheia em meros fait divers. Metodologicamente, os romances-reportagens foram
considerados não como simples objetos de estudo, mas como articuladores de vivências que
carregam tempos e lugares repletos das tensões da realidade histórica. Por fim, no movimento
da tessitura jornalística rumo às possibilidades romanescas, percebeu-se que as coberturas
podem, de fato, ser potencializadas: elas se amplificarão em direção a temas que, sem as
possibilidades do Romance, seriam inaudíveis ou tabus nas rotinas da imprensa tradicional.
Federal de Goiás, colocou em diálogo dois campos distintos e complementares: o Jornalismo e
a Literatura. Neste hibridismo, a prática da reportagem aprofundada foi analisada à luz da
Teoria do Romance. Demonstrou-se que nem o texto romanesco nem o texto jornalístico se
sustentam à revelia da verdade e, por isso, ao contrário do receio quanto à imbricação entre os
gêneros, entendeu-se que ambos têm mais proximidades que divergências. O romance
comumente se faz do contato íntimo com a realidade inacabada; de uma aproximação com o
psiquismo do leitor; de uma encenação da pluralidade de vozes expressa no cotidiano vivo; de
uma vivificação do desconcerto de personagens por vezes silentes. A reportagem romanceada,
por seu turno, também se constitui dos mesmos termos: há nela uma intimidade com o hoje em
devir e, ademais, uma capacidade de se aproximar das mentes que a devoram. A partir
desses vieses, a tese aqui expressa foi a de que a romanceação da reportagem se constitui como
uma estratégia não apenas atinente à arquitetura textual ou ao arranjo de linguagem. Mais do
que uma técnica de escrita, esta tese defendeu que tal romanceação refere-se a uma ética de
cobertura jornalística, sobretudo quando a apuração diz respeito a temas que se situam no limite
da linguagem. Construiu-se, a fim de se defender este ponto de vista, uma análise ensaística de
duas reportagens: Los suicidas del fin del mundo – crónicas de un pueblo patagónico (2005),
da jornalista argentina Leila Guerriero; e Todo dia a mesma noite – a história não contada da
Boate Kiss (2018), da brasileira Daniela Arbex. Guerriero foi a Las Heras, um pequeno
município na patagônia argentina, para apurar uma onda de suicídios que, entre 1997 e 1999,
assolou dezenas de jovens que ali viviam. Arbex foi a Santa Maria, no Rio Grande do Sul,
estando diante de mães e pais que perderam seus filhos no incêndio na Boate Kiss. Essas
apurações tentaram chegar ao silêncio da perda abrupta, em um primeiro momento, e depois à
busca, por parte dos familiares e amigos daqueles que se foram, de uma compreensão da
totalidade da vida com seus reveses. Assim, sendo o domínio factual insuficiente para tratar
destas temáticas, verificou-se que as repórteres romancearam suas narrativas. Como se
constatou nesta pesquisa, o romance se constituiu como o gênero mais afeito a esta espécie de
fornecimento, a um só tempo, de uma experiência total e de um aparvalhamento – silencioso e
errante. Concluiu-se que, diante de temas tão complexos, as autoras colocaram em ação o
romance para vivificar, no olho do leitor, e via realismo formal, o espaço, o tempo e as
descobertas progressivas, sentidas, das personagens. O amálgama romance-reportagem compôs
uma ética baseada no respeito à alteridade, uma vez que, pela forma-romance, o leitor teve a
possibilidade de mergulhar no mundo de outrem, vivendo-o com proximidade e, por isso
mesmo, reconhecendo-o em Si Mesmo, sem julgá-lo ou sem transformar as ocorrências desta
vida-alheia em meros fait divers. Metodologicamente, os romances-reportagens foram
considerados não como simples objetos de estudo, mas como articuladores de vivências que
carregam tempos e lugares repletos das tensões da realidade histórica. Por fim, no movimento
da tessitura jornalística rumo às possibilidades romanescas, percebeu-se que as coberturas
podem, de fato, ser potencializadas: elas se amplificarão em direção a temas que, sem as
possibilidades do Romance, seriam inaudíveis ou tabus nas rotinas da imprensa tradicional.
Tipo de Arquivo
PDF
Ano
2022
Idioma
Português
Palavras-chave
Romance e Reportagem; Estética Literária e Ética Jornalística; Romanceação e Jornalismo Literário; Daniela Arbex; Leila Guerriero.
Autor
LUANA SILVA BORGES